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Sexta-feira, 05 de Junho de 2026, 18h:23 - A | A

Cícero Ramos

O relatório americano sobre o Brasil

Cícero Ramos

Quando os Estados Unidos anunciaram a possibilidade de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, o debate se concentrou nos números. Erro de perspectiva. O documento que embasou a decisão diz muito mais — e o recado mais importante não está no percentual, mas no que ele revela sobre as novas regras do comércio global.

O relatório do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) analisa temas que raramente aparecem juntos numa mesma mesa: Pix, etanol, propriedade intelectual, desmatamento ilegal e combate à corrupção. A conclusão é que determinadas políticas brasileiras prejudicariam interesses comerciais americanos.

Não se trata de uma avaliação neutra — raramente é. Mas o documento merece leitura atenta justamente por isso: ele revela como Washington pretende enquadrar seus parceiros comerciais numa era em que economia e geopolítica se tornaram inseparáveis.

A inclusão do Pix entre os fatores que justificariam medidas contra o Brasil seria, em outro momento, quase impensável num relatório comercial. O argumento americano é que o Banco Central acumularia as funções de regulador e operador, favorecendo o sistema público em detrimento de concorrentes privados (como Visa e Mastercard). A crítica não está dissociada dos interesses econômicos envolvidos.

Sistemas de pagamento instantâneo operados pelo Estado existem em diversos países. Ainda assim, a discussão revela algo relevante: infraestrutura digital passou a ser tratada como instrumento de competitividade econômica.

Quem controla os meios pelos quais o dinheiro circula exerce influência econômica e estratégica. O etanol oferece outro exemplo da amplitude do debate. O relatório questiona políticas que, na visão americana, dificultariam o acesso do produto dos EUA ao mercado brasileiro. Para Mato Grosso, um dos maiores produtores nacionais de etanol de milho, o tema é especialmente relevante.

A discussão vai além do comércio de combustíveis — ela envolve competitividade industrial, acesso a mercados e segurança energética. O fato de o etanol aparecer entre os temas destacados pelo USTR demonstra que a disputa comercial contemporânea já não se limita a tarifas, mas alcança setores considerados estratégicos para as economias nacionais.

É no capítulo ambiental, porém, que o relatório apresenta sua tese mais impactante — e mais controversa. O USTR reconhece a existência do Código Florestal e do Cadastro Ambiental Rural, mas argumenta que falhas de fiscalização permitiriam fraudes e exploração ilegal. A lógica é simples: produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente teriam custos menores e competiriam de forma desleal nos mercados internacionais.

O problema é que o relatório mistura, de forma conveniente, produção legal e ilegal. Trata-se de uma distinção fundamental. O combate ao desmatamento ilegal é legítimo e necessário. No entanto, ao não separar claramente quem cumpre a legislação de quem a viola, uma crítica ao crime ambiental corre o risco de transformar-se em justificativa para medidas de caráter protecionista que atingem indistintamente toda a produção brasileira. 

O fato de Mato Grosso aparecer citado nominalmente no documento não é um detalhe menor. Segundo o USTR, discussões sobre incentivos relacionados à Moratória da Soja poderiam enfraquecer mecanismos voluntários de controle do desmatamento.

A referência é breve, mas significativa. Decisões tomadas dentro de um Estado brasileiro estão sendo monitoradas e incorporadas às análises comerciais de uma potência global.

Num mundo em que cadeias produtivas são rastreadas com precisão crescente, a rastreabilidade deixou de ser apenas uma exigência de compradores europeus para tornar-se também um critério de acesso ao mercado americano.

Gestores públicos, produtores rurais e lideranças do agronegócio precisam compreender que o perímetro da política externa começa, hoje, muito mais perto de casa do que se imaginava.

A tarifa de 25% pode ser negociada, reduzida, suspensa ou até nunca entrar em vigor. Isso é circunstancial. O aspecto realmente relevante do relatório é outro: os Estados Unidos passaram a utilizar o acesso ao seu mercado como instrumento de influência sobre políticas domésticas de seus parceiros comerciais.

Produtividade, logística e custos continuam importantes, mas já não são suficientes. Governança digital, rastreabilidade, segurança jurídica, transparência regulatória e conformidade ambiental passaram a integrar a mesma equação competitiva.

O Brasil já enfrentou esse movimento na Europa. Agora começa a enfrentá-lo também nos Estados Unidos.

A verdadeira mensagem do relatório não é sobre tarifas. É sobre poder. Poder de definir padrões, estabelecer condicionantes e influenciar políticas internas por meio do acesso aos mercados. Quem interpretar esse debate apenas como uma disputa tarifária estará olhando para a consequência, não para a causa.

Cícero Ramos é engenheiro florestal e consultor técnico

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