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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2025, 09h:26 - A | A

MORTE BRUTAL

Mãe revive últimos passos de Emelly e espera por justiça nove meses após o crime: 'ela sabia o que estava fazendo'

Em entrevista exclusiva, Ana Paula fala com voz firme, mas carregada de sofrimento, sobre os últimos momentos de Emelly, a espera pelo julgamento

Da Redação

“Ela sabia o que estava fazendo”. A declaração é de Ana Paula Azevedo, mãe da adolescente Emelly Beatriz Azevedo Sena, de 16 anos, ao relembrar o crime brutal que ceifou a vida da filha em março deste ano, em Cuiabá. Transcorridos nove meses desde o feminicídio que chocou o país, a família ainda vive entre o luto, a dor diária da ausência e a angústia pela demora da Justiça, que até agora não levou a acusada, Nataly Helen Martins Pereira, a julgamento pelo Tribunal do Júri.

Em entrevista exclusiva, Ana Paula fala com voz firme, mas carregada de sofrimento, sobre os últimos momentos de Emelly, a espera pelo julgamento, a indignação diante da tentativa da defesa de alegar insanidade mental e, ao mesmo tempo, o renascimento da família com a vida da pequena Liara, filha da adolescente, que sobreviveu à barbárie e hoje é criada pelos familiares.

Ao relembrar do dia trágico em que perdeu a filha, Ana diz que Emelly foi atraída de forma calculada. A acusada se aproximou com histórias convincentes, explorando a vulnerabilidade de uma jovem grávida no fim da gestação.

“Eu não sei como foi que essa mulher encantou ela de uma forma. Ela falou assim: ‘mãe, tem uma mulher que quer me doar umas coisas, mas ela quer dar pra uma pessoa que realmente precisa. Ela não quer dar pra qualquer um’. E parece que ela contou que tava com o bebê pequeno, contou umas histórias que qualquer um acreditaria. Até eu, como adulta, acreditei.”

Somente depois, Ana Paula soube de detalhes que hoje considera sinais claros de premeditação.

“Depois eu fiquei sabendo que a Nataly falou pra ela que não era pra levar o marido, porque o marido da Nataly tinha ciúme. A cunhada da Emelly até falou: ‘Emelly, o dia que você for, me fala que eu vou com você’. Mas ela foi e não falou pra ninguém.”

Ana Paula relembra com precisão dolorosa os dias que antecederam o desaparecimento da filha. Emelly esteve em sua casa no fim de semana, participou da rotina familiar e seguia com os preparativos para a chegada da bebê. Nada indicava o que estava por vir.

Na quarta-feira, 12 de março, após sair do trabalho, a mãe estranhou a falta de contato.

“Eu comecei a ligar e ela não atendia. Depois começaram a chegar mensagens como se fosse ela: ‘mãe, tô indo buscar o protetor de berço’. Mandou até uma localização dizendo que estava numa pastelaria. Eu fiquei tranquila, porque a Emelly gostava de comer.”

A tranquilidade virou pânico ao cair da noite, quando o marido da adolescente ligou perguntando se ela havia chegado em casa. A partir daí, começaram buscas em hospitais, maternidades, ligações para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), registros na delegacia e uma madrugada inteira de angústia.

“Na minha cabeça, ela podia estar em alguma maternidade ou em algum lugar passando mal. Nunca passou pela minha cabeça a crueldade que essa mulher fez com ela.”

“Quando me contaram, parecia que eu flutuei. A ficha demora a cair. Até hoje eu fico pensando: como existem pessoas tão más?”, completou.

A dor do luto se mistura à revolta com a morosidade do processo. O julgamento, que era esperado para ocorrer neste ano, foi suspenso após a defesa pedir um incidente de insanidade mental.

Para Ana Paula, essa tese não se sustenta. “Ela pode ser tudo, menos louca, porque é uma pessoa que planeja cada coisa. Ela sabia muito bem o que estava fazendo. O júri ainda não aconteceu porque o advogado está tentando diminuir a pena.”

A mãe afirma que ouvir esse tipo de argumento é mais uma violência contra a memória da filha.

“É até injusto pra gente, como família da Emelly, ouvir isso. Mas infelizmente é o Brasil que a gente mora.”

Enquanto o júri não acontece, a família segue vivendo um dia de cada vez, entre a criação de Liara, a saudade que não passa e a esperança de que o caso não caia no esquecimento.

“É uma ansiedade, porque a gente quer ver as coisas acontecendo e não vê. Mas eu entrego tudo nas mãos de Deus e continuo cobrando. A Emelly não pode ser só mais um número.”

Para Ana Paula, a condenação máxima não é vingança, mas uma resposta necessária do Estado diante de um crime que abalou o país e deixou marcas irreparáveis.

“Uma menina boa não merecia tudo o que passou. O mínimo que a gente espera é Justiça”, finalizou.

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